terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Contos Inocentes

Quando eu era criança, minha avó, dona Inocência dos Anjos, me contava as mais variadas histórias de lá, de Portugal.

Tinha de todo tipo:

As engraçadas, desenvolvidas e longas. E aquelas de cunho moral no encerramento, curtinhas e pedantes... Tinha também os ditos, que se resumiam a curtas frases que, normalmente exigiam uma explanação devido à nossa tenra idade.

De vez em quando havia até uma ou outra história de terror ou sobrenatural, que a vó jurava ter ocorrido com uma vizinha ou um conhecido na miúda vila de Trás os Montes.

A experiência dos meus ouvidos infantes era evidentemente outra diante da exata mesma história contada muitos anos depois! Agora, adulta, observo nuances antes intocados de contos que se repetiam às vezes dias seguidos!

"Vó! Conta a história da vaca de novo!" 

Esses dias eu estava retomando a leitura de antigos cadernos e me deparei com um pedaço delicadamente rasgado de página com um dito popular:

"Castanheira do meu avô
  Oliveira do meu pai
  Vinha minha"

Hoje eu compreendo o jogo de palavras referente à duração do plantio à colheita de castanha, azeitona e uva.

Que rica enciclopédia viva herdamos nessa família!

E que sorte a minha de ter a vó tão saudável e lúcida hoje pra me contar mais e mais vezes a história da vaca e outras tantas.




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Diálogo

- Desculpe, mas não é permitido fotografar neste local, senhor.
- Não? Por quê?
- Porque o local não é apropriado.
- E que local é apropriado?
- Escute, senhor: aqui não pode.
- ...
- Ah, senhor? Também não é permitido fumar aqui.
- Ora, e por quê?
- Não é local apropriado, senhor.
- Então é apropriado para fazer o que?
- Só sei que não pode fotografar e nem fumar, senhor.
- ...
- Senhor, vá me desculpar, mas comer também não pode, não.
- Ah, claro... Imagino que não seja local apropriado.
- Isso mesmo, senhor. 
- ... 
- Senhor?
- Sim...
- O senhor pretende ficar aqui parado por quanto tempo?
- Por quê?
- Também não pode ficar parado neste local, senhor.
- Talvez o cavalheiro esteja me sugerindo que eu saia daqui, certo?
- Senhor, desculpe, mas não tenho autorização para sugerir.



- Ensaio de: A Metamorfose do Processo, Caderno de Poesia nº 3

Por Fernanda Serpa, 2003.