sexta-feira, 18 de junho de 2010

Catorze de Junho - Homenagem

Cerremos esta porta.
Devagar, devagar, as roupas caiam
Como de si mesmos se despiam deuses,
E nós o somos, por tão humanos sermos.
É quanto nos foi dado: nada.
Não digamos palavras, suspiremos apenas
Porque o tempo nos olha.
Alguém terá criado antes de ti o sol,
E a lua, e o cometa, o negro espaço,
As estrelas infinitas.
Se juntos, que faremos? O mundo seja,
Como um barco no mar, ou pão na mesa,
Ou rumoroso leito.
Não se afastou o tempo. Assiste e quer.
É já pergunta o seu olhar agudo
À primeira palavra que dizemos:
Tudo.


In Poesía completa, Alfaguara, pp. 636-637

Poesia colhida do blog de Saramago, o Caderno.
Após ter mergulhado no mundo deste autor de um parágrafo só, sofro a perda do gênio. Um humano que, como poucos, inspirou minha criatividade, alimentou algumas das minhas dúvidas, instigou outras. Insubstituível ele será.

Espero ter tempo para ler o restante de todas as suas obras enquanto estiver viva. Luto... Luto.