terça-feira, 24 de junho de 2008

primeiro capítulo de um romance

Preciso lavar meu rosto. Os dentes estão limpos, mas preciso lavar meu rosto. A porta. Planejei o dia para ficar só e essa maldita porta! Por que hoje? Correio.

Novamente só, noto a nudez do meu rosto, que incomoda meu pensamento no momento vário de momentos únicos sem qualquer solicitação física, enquanto me saltam os impulsos mentais.

Tudo está limpo e eu estou só. Dispenso meu paladar de tatear sabores, permito ao meu ouvido a leitura da sombra que agora me inspira a criar.

Que multidão invasiva, tão próxima, solta e irregular. Ninguém nota sentido na massa humana. A luz vermelha dá-lhes a ordem e obedecem, cegos, sem nada questionar. Presos à sua submissão. Eu sou essa massa. Faço parte disto quando atravesso a rua, obedecendo o ritmo social. Triste conjunto compacto incapaz de admitir estar só dentro do limite de sua carne, da sua culpa. Resta-nos rir. Rir de nós mesmos, dos semelhantes, dos distantes, dos errantes.

Esta carta me olha. Eu olho a multidão. A carta está fechada, a janela está fechada. Não vejo nada, só antecipo o óbvio e me surpreendo quando algum item se desloca. O prazer da nova atenção diante do inesperado me detém por pouco instante até que eu abra a segunda carta. Cobrança. Volto à janela. A fresta é suficiente para meus olhos fixarem as imagens. As mesmas imagens.

A porta. Será possível?! Parece mais distante o espaço entre o quarto e a maçaneta. Já vou! Imaginava que era você. Mas hoje não é um bom dia para conversa. Você se sente só como eu. Sua presença me incomoda, mas você não nota. Sim, você nota, mas precisa desabafar e não encontra mais ninguém que te ofereça compaixão suficiente para suportar as tuas lamentações. Vinho? É, sei que está muito cedo, mas acordei há um tempo já e não me importo com o relógio. Água? Café. Você vai caminhar atrás de mim até a cozinha, falando incessantemente. Vai se sentar na mesma cadeira, apoiar o cotovelo esquerdo na mesma mesa fria e depois recolhê-lo, com um gesto previsível de cuidado consigo, aquecendo-se com as mãos pequenas, que esfregam seus braços fracos, num gesto enérgico e tolo. É sempre igual, mas precisamos disso, dessa rotina estúpida.

Alcanço o armário, trago duas canecas e sento a encarar teus olhos grandes e ávidos, ansiosos por coisas que eu nunca decifro. Você me irrita e eu não sei como te expulsar daqui! Sua mão vai percorrer a asa da caneca, investigar a página da folhinha arrancada de ontem, esmagar a pequena formiga que caminha sobre a toalha surrada, vasculhar o buraco da mesma toalha. A mesma coisa, a mesma coisa!

Mais café? Ah, o vinho. Sim. Não, agora a ansiedade percorre minha espinha. Eu vou abrir o vinho e estou de costas para você, sem saber se sua mão mata outra formiga. Você fica sempre nessa cadeira e não encontra posição. Sua presença me incomoda e você se incomoda com a cadeira. Vou até a janela, olho para baixo. Lavo as canecas rapidamente e trago de volta para a mesa. Agora vou me sentar nesta outra cadeira e te servir o vinho assim, de longe. Imaginei que seu olho ia percorrer minha mão, todo o meu braço até chegar ao meu olho. Espanta-te o meu movimento. Não me movo. Que lástima! Não quero aparentar tristeza!

Sim, há três dias eu não saio de casa. Ontem você me fez a mesma observação, minha amiga. Depois comenta sem me encarar que é preciso se isolar para criar. Quer me consolar, mas não preciso de consolo. Oferece-me o exemplo do seu aluno que falta às aulas ao menos duas vezes no mês e, ao final do teste, extrai do pobre violino todo o seu potencial.

Você se levanta com a caneca na mão. Caminha até o piano e percorre os dedos suavemente pelas teclas. Volta e senta à minha frente, na mesma cadeira. Sempre a mesma cadeira! Mais vinho? Você nunca se serve! Você conhece cada canto da minha casa mostrando mais intimidade com ela que eu, mas não toca em nada que eu não ofereça, não pertence a nada. Pertence aos meus olhos e se limita a isso. Limite que você se impôs. Eu sempre te ofereço o piano, mas você nunca se senta e nunca toca para mim nenhuma música. Nem mesmo uma nota! Você parece muito leve! Parece impossível que seus músculos consigam fazer pressão suficiente para trazer um acorde ao ambiente. Eu sempre duvido disso, mas sempre me calo. Satisfaz-me que você não cobra palavras minhas. Não sei o que te dizer! Você fala tanto! Fala coisas que não precisam de complemento. Fala coisas vazias e previsíveis, repetidas.

Mais vinho. Minhas pernas estão começando a relaxar e percebo que um sorriso meu escapou até você. Eu não esperava por isso. Nem de onde tirei esse sorrir. E você me retribui com um espasmo facial, que, eu sei, é afável e compatível a um sentimento de descontração. Você às vezes me espanta! Não para de falar! E eu quero escrever! Preciso criar hoje. Preciso ficar só hoje! Já estou angustiando, definhando meu humor. É uma situação limite, você precisa sair agora e eu não consigo te dizer isso. Observo o relógio, observo minhas mãos, que vão aumentando e ficando sem lugar para onde correr, para onde escorrer.

Você se levanta, suspira. Dá uma desculpa qualquer, agradece pelo café. Agradece pelo vinho. Espera por uma palavra minha. Eu acho que soltei um grunhido irreconhecível de consentimento ao que você acaba de dizer. Abro a porta. Uma rápida despedida encerra o constrangimento. Fecho a porta devagar, com cuidado para não produzir ruído. A porta. Agora ela deve permanecer fechada até o fim do dia. Volto as costas para o mundo lá fora.

Vou caminhando ao quarto. Repentinamente, pego o agasalho e saio, com passos não muito lentos, nem tão rápidos que impeçam meus olhos de se confrontar com as cores do ladrilho na parede e das manchas de umidade que envelhecem o corredor desta antiga casa. Ponho os pés no cimento e caminho atrás da minha sombra, criada pelo sol fraco dessa manhã fria. Cabeça baixa, talvez um pouco de tontura, não sei ao certo. E cada passo despe a impressão de vazio e de que não tenho nada na mão.