quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Cortar o bolo

É todo um protocolo que se cria no dia do aniversário:
Os abraços, os telefonemas com votos de felicidades, o bolo, aquela música ridícula... "É pique, é hora, rá-tim-bum". 
Posso parecer antipática - até que eu não discordaria desta sentença em certos pontos, mas penso que toda essa formalidade, contrastantemente fantasiada de descontração e alegria, é tão problemática! 

É claro que receber abraços é muito bom. E os presentes, então? Nem se fala! Quem não gosta de ganhar presente? O que não me anima é aquela obrigação que pressiona as pessoas a parabenizar aquele parente distante, por exemplo. Cria-se uma situação tão constrangedora! O diálogo ao telefone fica sempre naquele nó:
- Oi, parabéns, viu?
- Obrigada...
- Muitos anos de vida para você...
- Obrigada...
- Quantos anos mesmo? Puxa, tá ficando velha!
- É, né?
(risos nervosos)
- Então, tá! Vê se aparece! Abraço!
E quando desligam, ambos respiram aliviados e livres do mico, que dura longos 2 minutos.

Porém, contrariando toda a minha antipatia por festinhas, alimento aquela antiga crença de que parabenizar o aniversariante antes da data traz azar.

Esse clima festivo me lembra a vó Margarida, que alimentava uma lista de aniversário de todas as pessoas conhecidas: amigos, colegas, vizinhos, parentes, distantes ou próximos. Ela fazia questão de ligar para cada um, parabenizando metodicamente as pessoas nos seus respectivos dias. Que trabalho! 

Certo dia, ela telefonou para cinco pessoas, seguidamente. Passou os seus quarenta minutos ao telefone. Não sei, mas a expressão facial dela me mostrava certa espontaneidade e prazer no ato.

É... tem sempre um sábio da vida para contrariar nossos valores. Sábia vó Margarida: viveu sua vida com intensidade, mas com pudor. Única. 

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