quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A nossa geração olha para trás

Por que nós, jovens nascidos nos anos 80, sempre lemos criações da geração passada, retrasada?
Por que eu e meus amigos ficamos fascinados com toda a arte produzida na época da ditadura brasileira?
Por que nos identificamos e admiramos tanto a cultura beat?

Não sei se é porque atualmente não encontro nada tão forte, sujo, vergonhoso e autêntico pra ler... Talvez também seja porque leio hoje coisas que me parecem perfeitas demais. Nada novo, tudo no lugar... Então, volto ao passado de novo, busco o caos mais nostálgico. Hoje encontrei uma poesia interessante e clássica, que envolve todo esse meu sentimento retrô!

Segue um trecho de "Uivo", do Allen Ginsberg.

" Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,

morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca

de uma dose violenta de qualquer coisa,

"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato

celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando

sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta
mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram

anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados

das casas de cômodos,

que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes

alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake

entre os estudiosos da guerra,

que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi
carem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca
da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
de papel, escutando o Terror através da parede... "